Três variações sobre um tema I

   O ano de 2020 foi um ano de mudanças. E de acontecimentos. Maus. Bons. 

   Em ano de pandemia, de escola fecha e escola abre, vamos todos para casa para o absurdo do ensino à distância e experimentamos uma existência não usual. Confesso que a mim me soube bem. Como professora com alguns anos em cima do pêlo, ter abrandado o ritmo permitiu-me ter tempo para outras coisas. Não vivo para o trabalho. Ainda encontro graça no ensino mas não encontro grande graça na maioria da malta que ensina. São aborrecidos, acomodados, ultrapassados, ressentidos, tristonhos, usados e abusados. Estão cansados. Assim como estão não fazem coisa de monta. É mandá-los para casa, cuidarem das plantas e fazerem bricolage enquanto ainda têm pernas para se baixarem e bexiga para dispensarem fraldas.  Eu faço parte desse grupo de quase imprestáveis. É dar lugar à malta nova. 

   Descobri a aguarela por intermédio da Rui, descobri que há mais vida para lá do retrato a lápis, descobri que gosto de desenhar paisagens, objectos e coisas, o dia a dia enquanto decorre e que a aguarela me permite chegar à expressão plástica de uma forma totalmente nova. O autodidactismo por enquanto ainda chega mas sinto que preciso aprender para além do que consigo captar. 

   Um pequeno workshop sobre desenho gráfico (urban sketching) já o fiz no dia do Corpo de Deus, 3 de Junho 21, na Lousã (curiosamente) sob a orientação do desenhista urbano Paulo J. Mendes e no qual aprendi algumas boas ferramentas que tenho procurado usar no meu dia a dia. Uma das dicas fundamentais é a necessidade de treino diário, nem que seja apenas um esboço rápido, uns rabiscos a correr sobre algo que nos chame a atenção...a ideia de que tudo é desenhável é outra ideia que me agrada muito. O modelo não tem de ser refinado, visualmente e esteticamente perfeito. Pode ser uma porta lascada, uns pedaços de metal enferrujados caídos sobre um monte de arbustos espinhudos... a vida, o mundo não são perfeitos. Mas tantas vezes a expressão que fazemos dele(a) é tão mais interessante. O desenho é uma dessas vias. 

O meu professor ensinou-me que, para inicio das hostilidades é útil aquecer sempre a mão, o afino, o olhar, através de alguns sketches rápidos em vinhetas pequenas sem grandes preocupações senão o de encher totalmente a vinheta. "Soltar a mão" é uma expressão à qual me estou a habituar. É recorrente nesta malta que gosta do desenho e da ilustração. Eu sou uma rookie, se soltar a mão é quase dogma, eu segui-lo-ei cegamente. Com as vinhetas veio uma ideia: três variações sobre um tema. Três vinhetas, três desenhos. O tema é o espaço que decido desenhar nesse dia. Da primeira vez fui à Casa da Música, três ângulos diferentes, mesmo cenário, mesmos actores ou diferentes. A ideia é gira e conta três histórias.

   Ontem, dia 7 fui ao meu poiso rotineiro do último mês, agora que estou com a Rui, passear no passadiço que vem de Espinho e se estende até Vila Nova de Gaia. A paisagem é de cortar o fôlego. As possibilidades de desenho são quase infinitas. Ontem, não precisei de ir muito longe. Os motivos marinhos e a paisagem urbana coexistem muito bem e o resultado foi bom, para mim que tentei ser rápida a desenhar, não mais do que 10 a 12 minutos por vinheta, com aguarela em casa. Quero continuar neste registo, 3 variações sobre um tema, um triptico urbansketching até que outra ideia chame por mim.



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